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Neon
Ela olhava o lado de fora do quarto vagabundo de hotel. Nua, um cigarro na mão, a maquiagem borrada do choro e o letreiro luminoso apaga-acende-apaga-acende. Aquelas pessoas na rua sem saber da sua vida... que vida? Ele, dormia ali, satisfeito, ao alcance de sua mão. E de todo o resto... Mas só ela sabia o quanto de verdade ele estava distante. Quão sozinha pode ser uma vida vivida ao lado de uma pessoa só... Isso, só ela sabia. Lembrou de Clarisse Lispector e de como ela estava certa de suas trevas geladas, que eram só dela. Só aí que ela estava errada. Essas trevas geladas dentro de si todo mundo tem, ora. Umas mais frias do que as outras, outras maiores... Mas tem. Não tem? Claro. Isso a consolava. Um consolo assim, raso. Como aquele que a gente tem de pensar que tem um teto pra dormir, comida pra comer, duas pernas pra andar e olhos pra enxergar. Porque na verdade, só ela sabia do abismo gigante que eram as SUAS trevas e quão intensas e geladas elas eram para si mesma. Só para si. Trevas invisíveis aos outros como ela naquela janela de hotel barato de beira de estrada. Como o neon maldito de que era feito aquele letreiro.
Escrito por Flay às 22h27
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